Excerpt for Dançando Valsa Nos Salões Do Inferno by maick nuclear, available in its entirety at Smashwords





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Dançando Valsa

nos Salões do Inferno

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Dançando Valsa

nos Salões do Inferno



* versão original de 2007, arquivo bruto, sem correções ou cortes.























É impossível fugir à impressão de que as pessoas comumente empregam falsos padrões de avaliação – isto é, de que buscam poder, sucesso e riqueza para elas mesmas e os admiram nos outros, subestimando tudo aquilo que verdadeiramente tem valor na vida. No entanto, ao formular qualquer juízo geral desse tipo, corremos o risco de esquecer quão variados são o mundo humano e sua vida mental. Existem certos homens que não contam com a admiração de seus contemporâneos, embora a grandeza deles repouse em atributos e realizações completamente estranhos aos objetivos e aos ideais da multidão. Facilmente, poder-se-ia ficar inclinado a supor que, no final das contas, apenas uma minoria aprecia esses grandes homens, ao passo que a maioria pouco se importa com eles”’.

Sigmund Freud


Para a geração (de ressaca depois da) coca-cola (com pinga)

Baseado em fatos fictícios


Paloma Negra

1

babás imperfeitas: onde as primeiras impressões não valem porra nenhuma


Essa noite se fantasiou de Betty Boop, só pra me enganar”.

Ricardo Carlaccio

Maldito caça-níquéis da Betty Boop! Esta é a primeira vez na vida que jogo nesse maldito caça-níquéis da Betty Boop e ele já me dá prejuízo. Hã. Pelo menos estou melhor que Johnathan. Johnathan está sendo aliciado, ou melhor, está sendo flertantemente subornado por uma esquálida e desdentada prostituta em péssimo estado de conservação.

A puta identifica em Johnathan um alcoólatra e tenta seduzi-lo, ou seja, tenta comprá-lo utilizando-se de dois dedos de cerveja (provavelmente já quente e visivelmente sem gás), num gorduroso copo americano com resto (de baba espumante) da porra de seu último cliente na borda.

O Barba – o cara que sempre chamo de “E aí, Los Hermanos” –, fora buscar quatro Derbys “fura peitos” vermelhos avulsos e, Johnathan, tentou dissimular, mas percebi que ele escaneou maliciosamente aquele xerox mal cuspido de filhote rejeitado de dragão de Comodo, que não tinha os dois (dentes) centro-avantes. “Hã: a seca”.

Tudo isso, dentro do Bar do Robbin Willians, o único que vem com cheiro de mijo grátis que gruda como perfume do Largo 13 ou fumaça de cigarro nas madeixas das meninas. Bar esse onde os copos semitransparentes serviam de hotel cinco estrelas para os mais distintos e egrégios coliformes fecais (que desfrutavam suas férias veraneias).

E as novidades do dia no bar do Robbin Willians eram: o ovo azul (de praxe nas melhores bodegas desta insólita nação), um novo “poema” pichado com caneta de bosta na parede do banheiro (outra mania peculiar dos nativos da “ilha”) e uma coisa que parecia ser uma coxinha, afogando-se em óleo Singer (frio), atrás do retangular vidrinho verde, cheio de moscas (do lado de dentro). Enfim: produtos de tipicamente brasileiros.

Realmente acho que Johnathan se interessou pela mais nova garota propaganda do Super Corega, pois me olhou pedindo aprovação com os olhos... E eu?!. Eu apenas coloquei outra moeda no caça-niqueis da Betty Boop e respondi também com os olhos: “dá seus pulos, coelho”. [O popularmente famoso: se vira].

Johnathan não pulou. Pegou seus cigarros com o Barba. Desvencilhou-se da “Boneca de borracharia” e seguimos rumo à essa tal de Rave Urbana. A tão falada: Rave Urbana (“Rave Urbana” é foda). Onde estaria essa tal de Paloma Negra. A até então (obviamente, para mim), incógnita: Paloma Negra.

– Há. Ganhei cinqüenta centavos...


2

aniquilando reminiscências da noite com escombros sobre a TV, frigideira e detergente


A mi, me gustan las muchachas putanas. Dessas que chupam as bolas, que entram de sola. Das que não têm meio termo”.

Mário Bortolotto


Acordar naquele dia não foi nada fácil. Minha indecente carcaça jazia soterrada sob o edredom de uma pesarosa e descomunal letargia. Meu cérebro encaminhava-se à uma sincope letal [Que merda é sincope?], no mínimo altamente lesiva, enquanto sofria os danosos efeitos de uma anestesia mental à base de opiáceos imaginários e deliberadamente corrosivos. [Chamem os paramédicos]...


/...(Todo dia) Uma angústia monstruosa puxava meu pé para baixo da cama. E o monstro do armário – representado aqui por Beto Carrero, pois Clint Eastwood não pôde comparecer, estava em Dallas –, fazia sua infernal aparição só pra me dizer: “Filho. Você não serve pra nada. Você é como a merda de vaca que há na sola do meu Vulcabras. É isso que você é filho! Um verme inútil que há de morrer na merda que há na sola do meu sapato. E os vermes, filho: devem mesmo morrer” e dava-me um tiro de quarenta e cinco bem no centro da Jaca. Boom, já era. [O chicote estralou]. Au revoir, muchachos. De volta a velha realidade mundana.

...Eu estava desempregado há quase três anos. Há mais de um sem escrever um roteiro sequer. Nem de filme pornô mudo. Já até pensava em ocupações alternativas. Algo tedioso, inculto e fixo... Hã! Fora que eu estava há cinco anos sem uma banda, sem um baterista efetivado e a vida inteira atrás de uma resposta – “Procurando os porquês?”, você me pergunta. Não: “Quando”, lhe respondo.../


Acordei... Como estivesse ressurgindo do vácuo de um coma de vinte e oito anos, dois meses, quatorze dias, sete horas, cinqüenta e nove minutos e dois segundos: levantei as pálpebras. Pálpebras essas que se abriram dificultosamente no melhor estilo “porta de elevador de estacionamento enferrujada do centro velho”. E minha primeira visão do dia (sem contar o franco-atirador de circense), foi uma escatológica camisinha. Com dejetos do reto de alguma beldade na ponta – pelo menos, naquele momento, quis acreditar que fosse uma beldade –. Ali. Ao meu lado. Na cama.

Reconheci um Chamiço sabor artificial de maçã (?) no chão. Quer dizer: em cima das roupas que estavam no chão. E algumas bitucas de Marlborão red, tingidas de batom red (no filtro red), espalhadas piso afora.

“Alguém esteve aqui! – eu não fumo (e óbvio: não uso batom!)”.

Obstante, tirando essa bagunça de fácil limpeza [Só empurrar pra baixo da cama e já era!], tudo estava em ordem [Cancelem a diarista]. Ou pelo menos até onde minha visão alcançava. [Uns dois metros mais ou menos].

E por mera expressão de vagabundo instinto, minhas pálpebras tropeçaram ebriamente, e, na seqüência, deram pulinhos idiotas para disfarçar a cena ridícula que acabavam de protagonizar. E sem nenhum aviso prévio, perdi os sentidos em algum canto da cama. Levaram minha integridade pisco/física pra mijar no poste e cagar na calçada. Ou seja: adormeci novamente. “Apoplexia nervosa”.

Na tela quente de meus turvos e conturbados sonhos, passava a reprise de “Socorro, Jesus, o elevador está caindo”. Um espécie de sub-sonho B. que fazia a interação entre minha rotineira reprise em queda livre, e a Tina Turner, com sua viradinha de bailarina bêbada de boteco fuleiro, em Punta del Leste, passando pela quadragésima vez no canal cinqüenta e oito... E novas: a TV amanheceu ligada novamente.

Naquela altura do campeonato dos perdedores, durante o “ronco dos justos”, tive a fabulosa impressão de estar mijando na cama. Nem me lastimei. Talvez nem conseguisse alcançar algo parecido com lastima na lastima daquele estado lastimável. Apenas subi a porta do elevador de estacionamento e... “Nossa, maaano. Tem uma louca chupando meu pau”... Pela cor do cabelo talvez fosse Angela. “Ah, firmeza! Meu pau está em boas amígdalas”.


/...“Quem nunca acordou sendo abocanhado, não sabe o que é viver”.

Robério Fumagalho, Sábio e maconheiro esporádico... /


Talvez fosse Ângela, mas aquela não era minha principal preocupação naquele momento. Então mirei a retina no rack, e ao focar, vi que não havia sumido nenhum dos Cds do Rei. “Firmeza, nenhum Cd sumiu”... Voltei ao estágio de pré-mortem featuring Tina Tuner... Capotei novamente... Apaguei... Apagão e... “Água?!”. Ângela virou uma jarra com suco de abacaxi, gelado, em cima de mim.

-Isso foi só pra avisar que estou indo embora – disse a mulher que me deixou molhadinho.


Ângela. “Mais uma Ângela em minha vida”. Até na despedida era uma cachorra estilosa. [Tanto quanto “clicherosa”]. Até na despedida era melhor que na vinda. “Mó rabão”. E assim que a ouvi fechando o portão, finalmente, levantei – e, porra: ela podia jogar merda no papa durante a missa do galo se quisesse, pois afinal: ela era uma executiva de negócios. [???].


***


Fato: sair da catacumba enclausurante é uma experiência que traumatiza qualquer ser noctívago... E como diria o sábio e estelionatário, Robério Fumagalho: “Pior que é!”.


***


Foram duas tentativas de atingir a maçaneta da porta. Na primeira minha mão vazou no ar. E: “FILHO DA PUTA”, topei com o dedão no rodapé da porta. Na cozinha: “Café, urgente”. Derramei uma boa cota de café na toalha de mesa branquinha enquanto o misturava ao leite. Cocei o saco no corredor. O tempo estava seco, seco não, árido, põem árido nisso. Era como engolir um pacote de cal no centro do deserto. O oxigênio tinha até certo sabor de escapamento de Scania ao molho de esgoto.

Arrastei meu copo de café com leite até a janela da frente. Recovo na janela-guilhotina. Absorteando no vácuo do espaço-tempo. E quando já estava quase atingindo o Nirvana, crânio adentro, e já até ouvia um “Polly wants cracker”, tocado por um deformado Elvis Cover, sinistramente, de fundo. Crispei os olhos e vi um abajur equilibrando-se no fio do poste que há em frente de casa. “Nooossa, maaano. Que briiisa”. Mas não era um abajur. Era uma pipa rasgada. Desbotada pelo tempo. Bamboleando no magnetismo cancerígeno do cabo de alta tensão. Indicando um sudoeste sem muita potência.

“Que merda. Isso é a merda de uma miragem! Uma merda de uma miragem urbana. É uma porra de um abajur de plasma... Ei, espera lá... Bom nome: Abajures de Plasma”.

Recorri ao criado mudo. Disse a ele: “Aí ô ‘silêncio dos inocentes’. Vou abrir a gaveta e vê se não dá um pio senão te arrebento na bica”. [Que cara retardado]. Peguei uma caneta – a que tinha a estampa de uma companhia aérea falida (na época) – e na falta de um caderno, caderneta, agenda, papel higiênico, seda, ou um miserável alfarrábio que fosse... Comecei a escrever um puta texto estranho na conta de luz, azul sobre azul:


Abajures de plasma
Por Jack San Diego


Hoje, tropecei nos limites da percepção. E quando topei com o dedão do pé, na quina da lucidez, senti o traumatizante disparo seco do raio que criara a fronteira entre a miséria e a glória.

Quando estátuas hasteiam bandeiras no meio fio de um filme mudo, os cubos de gelo separam o certo do errado. Como um protocolo à se seguir no mundo.

De manhã, as catástrofes brotavam das latas de atum e faziam rachas de rolo compressor, no quintal dos fundos, embaixo dos varais gozados. Indo de telhados à bancas de jornal.

Não há mais esquilos e filmes pornôs nos rejuntes do piso. Só ternos de plástico verdes e omoplatas sem graça. Pois, hoje, toquei nos seios da justiça, enquanto divagava nas tragadas de uma diva sem olhos e enrrabava a liberdade que há na mente dos loucos.


Li o que havia escrito e disse ao vento:

– Que merda de texto estranho é esse, eim, seu San Diego? Pô, cara. Você é um maldito roteirista (?). E não um franguinho lírico que escreve num “querido bloguezinho”. Você é um roteirista que escreve “conteiros”, num blog escarrado, que você sustenta por mero sadismo psicossomático. Anda lendo Oscar Wilde, porra? Você é um sociopático roteirista (?), sabor abacaxi, com cheiro de buceta na ponta da língua e uma ressaca demoníaca, digna de um verdadeiro astro do rock, varrendo a devassidão de su’alma. Que é isso, cara? Você é mal. Muito mal. Mal pra caralho. Você não pode dar dessas não, sangue bom. O que os manos vão dizer de você na quebrada, no molho? Vai perder a moral dentro do próprio barraco, Jack? Você tem que criar um universo, cara. Foder o rabo dos antigos conceitos e pulverizar os pré-conceitos. Quebrar caras e parâmetros. Dar uma bela duma surra nas referências. Chutar o rabo das unidades enclausuradas fashion. Dar uma tacada de beisebol na cara dos tabus fuleiros. Tem que criar um mundo, Jack. Um planetinha de merda. Criar uma seta que transcenda as fronteiras da (ir)racionalidade, e não – dei um peteleco na folhinha da Eletro-paulo e completei: – esse lixo!

“Ah, pensando bem, até que não ficou tão ruim assim, vai. Ficou legalzinho. Essa merda non-sense é melhor que muita merda ‘com-sense’ que vaga mundo afora”.

Larguei o papel com desdém, sem queijo e bordas de mofa. Ele titubeou no ar e pousou sobre a cama. [Titubeou no ar?! Que expressãozinha fuleira, eim, seu Jack. Vish, até aqui tá fraco pra caralho].

“Quer saber?! Eu vou é voltar pra janela e ficar registrando as gostosas do bairro desfilando no asfalto, durante meu período de convalescença física que eu ganho mm... meeeeerda: ela me viu!”...


/...Ela: Patrícia Mantaglioni. Uma chata sem alça na galocha, na calçada lá de casa. Linda como atriz de filme pornô gringo de baixo custo (mas um custo bem baixo mesmo). Porém: uma mala despachada direto de Taquara Rachada do Reino. Ela me amava e esse era a merda do problema: a inconveniência sem noção de um ser que age por instinto bruto, não filtrado, sem o ínfimo resquício de racionalidade, tá ligado?!... É. Mas é certo que ver aqueles enormes olhos azuis, não comprados, mergulhados em vinho tinto (de tão “vermelho-cannabis”), enquanto ela abocanhava meu saco recém raspado, era visão digna de um Rocco, de um John Holmes... Pati estava no topo do “Hall(‘s preto) das Rememoráveis”... A senhorita Mantaglioni era uma das poucas loucas que agüentava ficar embaixo durante os 69’s malucos que a colocava para fazer. Pena que só entra a ponta. E é uma pena que até hoje nenhuma mina tenha conseguido colocar meu Alexandre inteiro na guéla e dizer Piracicaba... Só a Estér, uma puta do Afago´s. Mas puta não vale.../


“É. Preciso de uma eslovena engolidora de espadas que lembre a Björk”.

Pati Maionese. Atriz. Minto – que as atrizes me perdoem pelo erro –, apresentadora de um programa meia boca num canal UHF. Tocou a campainha. Me viu. Não havia como não atender.

– Ô, e aí?

– Tá ocupado? Posso su... – abriu o portão, adentrou a propriedade e subiu – ...bir?

“Por mil tubarões”, como diria Popeye em alguma de suas loucas aventuras em “alto” mar, fazendo um córri atrás do espinafre para colocar no cachimbo e adquirir poderes imagináveis. Mas tudo bem. Pelo menos ela leria meu horóscopo, responderia meus scraps, faria meu almoço, sentaria de rabo no meu caralho, lamberia minhas bolas até dizer chega e de quebra me faria uma massagem nos ombros.

Abri a porta da sala:

– Oi lindo

– Tira a roupa!

– Tá animadinho, eim?


Beijou-me insipidamente. Entrou. Jogou a bolsa no sofá e desceu, literalmente, do salto, no melhor estilo “Eu vim dar pro meu macho”...

– Eu tava com muita saudade de você, sabia? – ela disse com sua maneira peculiar de baixar a cabeça e olhar por trás dos cabelos. E sua voz de alfinete.

– Vai. Tire essa roupa má deste corpo que não a pertence – eu disse, quase que profetizando, agarrando-a pela cintura, enquanto o mundo girava lentamente ao melhor estilo I Love You, Mary Jane.

Ela despiu-se com aquele velho sorriso sardônico e diabólico, entupido de Cepacol. E uma lascívia que se arrebatava por baixo dos cabelos e deslizava sobre os pêlos descoloridos.

– Vamos ao banheiro. Você vai tomar banho comigo – eu disse, arrastando a pequena para a úmida alcova de copulações promíscuas. E pedras pomes fedendo a baseado molhado (culpa de antigas hóspedes).


Patrícia... Patrícia era um tipo de mulher que nunca beberia pinga com guaraná, no gargalo de uma garrafa pet, de um refrigerante de qualidade duvidosa, durante um show de Hardcore californiano. Mas o faria se sua frágil cabecinha lhe dissesse que isso iria lhe trazer algum tipo de emoção. Excitava-se ao circular em um mundo que por experiência digo: não era pra ela. E por algum motivo (motivo qual o papai aqui jamais indagou aos céus, nem aos controladores de vôo do aeroporto internacional de Cumbica), ela me escolheu para ser seu guia em um nem tão admirável mundo novo.

Patrícia assistiu meu curta “Omoplatas Nervosas”. Achou “o máximo”. Um curta que foi estragado pela genialidade diplomada de um diretorzinho cocozento. Um tal de Anselmo Martini. Martini esse que me levou de limusine ao SPC e de Apolo (treze) à uma dívida astronômica com o Banco do Brasil. Sem azeitona ou palito de dente. [Asshole].

Ah, ela foi a primeira pessoa a ver meu comercial, quer dizer, o comercial que protagonizei. Sentiu-se orgulhosa de mim.


/...Eu odiava aquela merda de comercial. Um comercial promocional. Fiz pelo dinheiro mesmo, pois a situação estava gritantemente crítica. Só aceitei fazer, pois eu havia chegado a um ponto em que matava cachorro a catarrada. Na geladeira só havia restos mortais de baratas anêmicas, dentro de caixas de ovos vazias. E as baratas sobreviventes [Música triste maestro], disputavam no dois-ô-um para ver quem jantaria as perninhas das pobres defuntinhas de sua própria espécie. [Emocionante! Alguém na casa tem um lenço? Essa vai levar o Oscar].

Mas então. Eu fazia o papel de um “malucão” que escutava walkman num ponto de ônibus, olhando para a rua, mascando chiclete, curtindo o som na maior altura. Parava um carro (pois a propaganda era do carro) com quatro gostosonas, só de toalhas. Uma dizia com sua vozinha de código morse: “Moço, você sabe como a gente faz pra chegar na praia de nudismo? Leva a gente lá moço. Depois a gente te trás”. Aparecia outra na janela do passageiro e dizia putescamente: “Vai, moço, leva a gente. Vai perder essa oportunidade?”. E o personagem (no caso eu) respondia, quase gritando, curtindo o som, apontando com o dedo: “É pra lá, ó!”. Elas se entreolhavam com cara de “o que esse imbecil tá dizendo?!” e saiam decepcionadas, cantando pneu e proferindo impropérios nada doutos em homenagem ao personagem. Aí o narrador dizia com voz de simba-safari: “Não é sempre que as oportunidades estão dando pinta por aí”. Aí mostrava alguns frames, do carro que estava à venda, fazendo curvas em alta velocidade, na rua, na chuva, na fazenda e passando por uma casinha de sapé, para mostrar seu desempenho. Depois cortava para uma velhinha que chegava a meu lado e apalpava, generosamente, meu rabo. Eu, quer dizer, o personagem, olhava pra ela e dizia: “Ééééé”, com cara de hiporonga feliz e completava: “Ó a tia. Mó barato”. Abraçava-a e saíamos felizes. “Me dei bem”. Ela apertava o controle do alarme que havia em seu chaveiro-dentadura e entrávamos num um carro todo mal acabado. Aí o narrador dizia o nome do carro, depois o slogan, com aquela mesma voz de simba safári: “Oportunidades sempre são únicas” (esse era o slogan). Terminava “comigo” empurrando o carro da velha e fechava com um bibi estridente. E tudo isso em quarenta e cinco segundos, que três dias depois, foram editados para trinta.

E como eu havia relatado anteriormente: Eu odiava aquela merda de comercial. Ele ia contra todas minhas doutrinas, dogmas, crenças, ideologias (preconceitos), senso e a merda do meu lifestyle. Fora que aquilo era um enorme atentado à soberania nacional: como assim: deixar quatro apetecentes, apetitosas e bundescamente carnavalizadas brasileirinhas, irem sozinhas a uma praia de nudismo?! Aí já é demais, né mano? Nem hipoteticamente; vai que tem um lobo no caminho. Aí o lobo come as quatro Biquininho Vermelho e eu fico com a senil vovozinha. Nem vira. Nem aqui. Nem na Conchinchina... [Conchinchina existe?].

(Era verdade, somente a verdade, nada mais que a verdade que) Eu realmente odiava aquele comercial. Fiz aquele “roteiro comercial”, ou seja, fiz um lixo de roteiro e atuei por um mero acaso... “Daria até pra fazer um título de um daqueles filmes toscos, de animais falantes que jogam beisebol e salvam o mundo, do SBT: “Um comercial por acaso”...”.

É. Eu desdenho, mas era dele que eu vinha vivendo nos últimos meses. Fiz os cálculos. Comprei uma lata velha pra me locomover na cidade. Deixei o resto pra viver certo tempo com conforto cristão. E aplicar na veia (das finanças). A inflação eu descontaria em regalias: compraria menos polvilho anti-séptico Granado e desodorante roll-on. Sem assombro, pois afinal, não nasci pro trabalho, não nasci pra sofrer e depois que descobri que essa merda de vida era muito mais que correr eu dei um breque.

“Metódico às vezes. Não responsável”.../

Mas até então. Estávamos ali. Ela e eu. “Deliciando-se com Pati”, era o nome do programa de fofocas pornô que apresentávamos em baixo do chuveiro.

“Oh Pati Verborrágica. Você me faz tão bem. Até esqueço que você foi dominada pelo popshit em New Kids on the Block e veio no embalo até É o Tchan... Baby”.

Meu pau levanta nas situações mais extremas, mas meu corpo queria cair por terra de qualquer maneira. Após uma pequena gulosa afogada, enquanto a água morna caia, virei-a com força, coloquei a cara dela no azulejo, mandei ela fazer a “lordose nervosa”, abaixei e comecei a lamber do cu loirinho até os confins de sua buceta. Mais por preguiça de ficar em pé do que por qualquer outra coisa. Ela grunhia feito um porco sendo abatido... Aquilo sim era uma foda molhada!

– Tum, tum, tum – vociferou a porta da sala.

– Jaaaack, cê tá aí? Abre aí pr’eu pegar meu celular. Jack. Jaaaack?!! – era Angela.

“Porra, Angela. Você tinha que ressurgir das cinzas logo agora, minha querida Fênix ruiva?”. [What go around come around, kiiiid].

– Quem é? - perguntou Patrícia, sussurrando.

– É um problema enorme.


Patrícia, cinematográfica como era levou as mãos à boca, arregalou os olhos e sussurrou mais baixo ainda (sem precisar ser dirigida nem nada):

– E agora?

– Agora?!: Fodeu!

“Pense rápido, seu Jack San Diego. Pense, porra. Use esse maldito crânio de roteirista (?) e ache uma saída para essa situação extrema. Toda essa situação é só mais uma das Fitas Homônimas, mais um dos Clichês-Dejavus da Vida (pois tudo na vida não passa de um clichê desgraçado). Utilize essa informação a seu favor. Ação e improviso, merda... Ah, já sei”. [Determinação de guerreiro. Determinação de um guerreiro, honorável, Jack].

– Se enrola na toalha, se embrenha embaixo da minha cama e não respira.

“É Jack. Tá vendo? Às vezes o básico é a melhor saída”. [Vish, que feio].

– Mas... Jack...


Segurei Patrícia pelas orelhas. Olhei no fundo de seus olhos. Olhos tão fundos e ocos que vi as raízes castanho escuro de seu cabelo amarelo, e disse:

– Escuta aqui, meu anjo. Você vai ter que confiar em mim. Essa é uma situação extrema em nossas vidas. E eu preciso da sua ajuda. Eu preciso de você e... Ah, depois te explico!

– Tá.

“Era isso que eu queria ouvir... baby”.

Ver aquele mulherão enfiando-se embaixo da cama não melhorou minha vida em nada. Mas já que ela queria aventura: hei-la! [É cara, talvez isso conte como “boa ação” no dia do julgamento final].

– Por que demorou tanto? – perguntou Ângela, a invasora guerreira.

– Eu tava tomando banho

– Sai. Deix’eu pegar logo meu celular porque eu to atrasada.

– Tem certeza que ele ficou aqui?

– Lógico – olhou misteriosamente uns duzentos e oitenta graus – Por que você está estranho?

– Estranho eu?! Você que tá estranha! – [A velha técnica ninja de jogar a culpa nos outros, eim, Gafanhoto?!].

– Estranha nada. Cê tá estranho sim. Mas vai. Sai da logo frente pr’eu pegar meu celular – empurrou-me.

– Você ao menos sabe onde deixou?

– Eu deixei minhas coisas no chão ao lado da sua cama ontem à noite, não lembra? No mínimo deve ter ido parar embaixo da sua cama... Sai da minha frente.

[Previsível, mas: Hummmmmmmmmmmm]

“Ô, merda. Bela maneira de se começar um dia”.


Triiiiiimm.... Triiiiiimm...


3

pesabundo! escargot e churrasco grego, a vida entre a punheta e o suicídio


Se no final a euforia era vício, de que vale a droga? Todo fim, o corpo em pedaços e na reconstrução para o amor: seu cabaço”

Samantha Abreu


Minha vida, àquela altura, era um clichê de filme B. Ora Eldorado, outrora a crueza dos asfaltos recalcitrantemente recapeados e suas depressões irritantes.

O mundo (em sua totalidade e não apenas) ao meu redor era um enorme e fétido chiqueiro. Onde meus contemporâneos festivamente chafurdavam nas rasas profundezas de um vasto atoleiro de futilidade em banda larga e estupidez à sangue frio.

Neste “mundo”. De bocadas à coberturas. Eu ia tocando meu barco furado dentre quartos de (m)hotéis fuleiros e luxuosos apartamentos. Bancos de praças escusas e orgias depravadas em casas desconhecidas. Finos restaurantes e boates fedendo a porra seca. Becos escuros e gargantas condescendentes. A tristeza do sol nascente e meu reflexo na água da privada. Santas que me davam e putas que não me amavam. Exposições e shows podrera. Fotos e Pizzas. Sarau legal e roupa no varal suspenso. Telefonemas na madrugada e problemas com a justiça. Mendigar cigarros e tomar Black Label. Lançamentos de livros, Cds, dardos, mísseis e pesinho olímpico... Brigas de rua por razões infundadas e discussões com idiotas que ainda não viram (e nunca verão) a luz. A indiferença da liberdade e a humanidade das boites. Bancos de trás de carros de atrizes malucas e orgasmos em solos de Blues tocando no Pioner. Vultos na noite querendo me enganar e fodas em cemitérios com góticas entorpecidas. A galhardia da lua e a solidão da punheta. Egos de gelo e vulvas em brasa. Filhos na lata e rabos rememoráveis. Churrascos e formalidades. Ensaios e cortes. Hidromassagem e roles na madruga. Drogas esporádicas e Need for speed. Cabernet e Fanta com pinga. Seções e locadoras. Enquadros cabulosos e bucetas mal lavadas. Armas de fogo e bexigas de aniversário. Telefonemas que não recebia e ameaças de morte. Drinques coloridos e bílis sepulcral. Largas/lasseadas e apertadinhas sem o lacre de segurança. Downloads intermináveis e viagens de ônibus. Bebedeiras insanas e sobriedade imoral. Falta de sorte nos jogos de azar e amores mal aventurados. O cu do mundo e a padaria da rua. Ipiranga e São João. Autógrafos e sedas. Toalhas e livros. Orkut e Messenger. Galeria do rock. E-mails que não chegavam. Roteiros não compreendidos. Propostas que não aceitava. Livros que jamais lia. Ordens de despejo. Promessas que não cumpria. Vizinhos que me invejavam. Geladeira vazia. Amantes psicóticas. Contas de luz. Cloridrato de benzidamina. Sebos. Aeroporto. Mercado municipal. Overconha. Complexo B. Palcos. Faxina. Fazer a barba. Catar as minas. Ficantes. Traficantes. Relaxantes musculares. Pipoca de micro-ondas. Uma dívida na locadora. A falta de uma musa inatingível e a constante sensação de não pertencer a essa raça de átomos falantes.

E nesse lodo infecto de minhas putinhas, caloteiros salafrários e impiedosas frustrações, eu buscava uma maldita aurora-boreal dentro de geladeiras e torpedos SMS. Um universo em uma caixa de fósforos. Um épico num copo d’água. Ou apenas uma calcinha preta esquecida na torneira da pia do banheiro de casa e uma recordação que rasgasse meu coração – eu disse Coração? – em mil pedaços.

E se a vida tivesse vindo apenas para literalmente foder comigo, eu partia pro arrebento, sem dó nem piedade. “So when you see me in you block, with two glocks, screamin fuck the world like Tupac: I just don’t give a fuck”.

E caso eu fosse me unir à falange dos perdedores, até aceitaria um aquário como prêmio de consolação. Não pega nada. É nóis.

E alhures (não me esquecendo de meu lirismo putrefeito). Num peido ao pôr do sol. Meu id afogava suas mágoas em uma piscina olímpica cheia de tubarões brancos em jejum. Folgados pra caralho. [Tinha até um com um canivete, mano].

Enquanto mágoas infundadas transformavam-se em câncer e indagações incrustadas na pele retalhavam-me de dentro para fora, eu era um renegado representando o papel de “papai feliz” em um comercial de Margarina. E o monstro do armário – Evil Carreiro – continuava lá: a pintar as paredes com meus miolos de merda.

Perambular – “no mundo dos canibais” – dentre a constante “clarividência sugadora de sangue alheia” que via em mim grande futuro era por demais contrastante ao meu lifestyle “I just don’t give a fuck”. E as fotos da minha fuça que flanavam em alguns artigos de revistinhas descoladas – por culpa de roteiros estragados por atores(trizes), diretores, (re)adaptadores e outros ores até a Dolores –, não mostravam aos olhos do mundo a penúria física/mental em que vivíamos naquele lado da cidade. Meu sorriso tingido de pré-histórica nicotina ocultava misérias (lutinhas “Mundo versus Eu”) pessoais e maltrapilhos arrombados que estavam na gaveta e que eu chamava de roupa.

Àquela altura. Meu problema com a corja de mamíferos falantes – aqueles iguais à mim – que habitam o planeta mais molhadinho do universo – essa merda que chamamos de Terra – talvez fosse o fato de não compreendê-los ou simplesmente o puro creme da inveja. Inveja de não ter nascido burro. Inveja de não encontrar algo inerente a felicidade em carros esportivos e gostosas rabudas com recheio de silicone. Mesmo buscando-os veementemente e tendo-os homeopaticamente... Inveja da futilidade psicológica.

“Pai eterno. Eu queria ser como aqueles que não sabem o que fazem. O resto. Os que medem Q.I. pela marca da roupa e o tamanho do pau pelo preço do carro”.

Pois é, meus caros. A estupidez é a solução para todas as nossas frescuras existenciais. Está claro que a “humanidade afora” está regredindo em (não digo “Q.I.” ou “erudição”, mas sim, esse “instinto racionalizado geneticamente intrínseco”, ou seja: essa merda que costumamos chamar de:) inteligência.

Estamos numa jornada rumo à um retrocesso tão grave, que faz com que nossa coluna vertebral vire um berimbau de imbecilidade. Regressão tamanha, que nos faz ser meras cópias de sonhos alheios. Meras estampas de imagens predeterminadas. Meros preconceituosos cult. Meros rabos no Gilberto Barros Show...

...todas as nossas referências (sociais) contemporâneas provem duma linfa de personalidades pessimamente mimeografadas. Industrializadas. Infláveis. Xerox do cu do cão postas à venda pela oligarquia mental dominante: a idiotice das telinhas, revistinhas de fofoca, a tendência da próxima estação, personagens do TV Fama e seu amor de volta em sete dias.

Perante a geração-balada [Que termo ridículo] há uma prateleira de escolhas monopolizadas, onde a única opção é a marca “Una-se à eles ou terá uma péssima vida social” = “Siga nossos ocos padrões e coma todas as minas”. E o que resta aos brasileiros de verdade? Aqueles que vendem o almoço para ir ao baile. Aqueles sem plano de saúde. Com dor de dente. Sem emprego. Despejados. Sem detergente. Com o sapato furado. Na palma da mão. Sem estudo ou câmera digital. Inadimplentes. Sem mistura no prato ou um pingo de dignidade que seja (ou seja: a maioria exagerada deste país-continente). O que resta a esses? Unir-se a “galerinha” e curtir os agitos de Malhação? Creio que não. Tenho certeza que não!

Nessa incessante busca por “enquadrar-se ao meio”, a maioria esmagadora de “idiotas em busca de aceitação” acabam nunca descobrindo o que (ou quem) realmente são. Ficam a mercê de tarólogos e programas de Domingo. Confiam suas vidas a aparelhos abdominais, música sertaneja e apresentadoras de programas do meio de tarde (assim como nossa “amiga” Patrícia). Vendem suas almas à seitas fisiculturistas e catálogos da Avon. Compram CDs com a trilha da novela das oito e cocaína na ladeira do morro.

A todo segundo esse sistema de “exemplos-de-personalidade/modelos-sociais” a serem seguidos, estão sendo atualizados na mídia (e na cultura) em geral. Fazendo assim, uma lavagem cerebral em nossas mentes com diarréia de marmotas (se é que marmotas têm diarréia).

E como diria o Filosofo e Rapper, B. Negão: “monocultura é a maior seqüela”...

Não sei se vocês já repararam, mas nossos “ídolos de carne” já não morrem de overdose ou são exilados como dantes. Hoje no máximo são Rebelde, caixa postal mil e vinte dois e etc – e é justamente por isso eu gostaria de ter escrito “Memórias do subsolo”. Só por diversão. Escreveria enquanto estivesse cagando num banheiro de um puteiro sujo, enquanto alternava os pegas de um bom baseado e a cerva gelada. Por mera falta de algo melhor a fazer.

...Não sei cara. Talvez tudo tenha a aparência de mera divagação de uma mente deturpada, mas não. Mas talvez alguém no planeta [Pica-Pau?] perceba que tudo o que é relatado aqui tem função friamente específica (ou não)...


/...Mas, mudando de assunto: um pensamento ambíguo que não está registrando uma opinião: “E já que iremos todos pro saco”:

“– De que me vale a opulência se não posso carregá-la para o outro lado? Levo meus conhecimentos.

– Porra, mano. E caso a alfândega do purgatório não for com a sua cara, apreender seus conhecimentos e jogá-los na seção de Muambas? As riquezas mesmo sendo (usurpadas pela receita federal) declaradas, bonitinhas, no imposto de renda, também não vão estar na mochila, quando eu literalmente cair por terra. No inferno dinheiro não vale bosta. Mas, ao menos, me farão aproveitar a vida ao máximo. As mulheres mais lindas. Os ternos mais caros. E de quebra me trarão a tal “cultura” em uma bandeja com patê de fígado de ganso” e nisso, a idiotice arrecadou mais uma alma [Isso que eu chamo de “grande parênteses”] – o que podemos tirar de tudo isso? Só Jesus...

Mundo de egocêntria onipotente empreste-me seus ouvidos: É uma lúgubre incumbência ser o portador de más notícias, mas lembre-se humanidade: não estamos no centro do universo (lembraram?). Nós não somos porra nenhuma. [Ei, Almir, seu Corvette não vale uma foda. Há, há].../

Um cisco vale para nós o que valemos para o universo. E isso, naquele tempo, não me incomodava em nada, mas saber que a qualquer hora poderia “capotar eternamente”, não me agradava nem um pouco... Como um poço de ansiedade poderia querer descansar em paz? “És impossible, homies, ése”.

Como prêmio consolação. Havia a tal da eternidade [Criogenia?]. Mas. Você acha que esse planeta vai durar tempo suficiente pra eternizar nossos contemporâneos? “Agora fodeu de vez”. Hã! Me sobram os velhos quartos de hotéis fuleiros, as “cintas ligas surpresas” de minhas loucas amantes e os fósseis que deixarei escrito para a terra que um dia há de assisti-los (ou desprezá-los).

Eu. Em meu míope ponto de vista digo: há muito mais entre um Fá sustenido e uma calcinha molhada do que supõem o nosso vil ovo frito. E nenhuma das perguntas nessa discussãozinha são “as” perguntas.

Agora eu. Jack San Diego. Faço uma pergunta: Quanto mais desculpas vamos buscar para continuar cometendo os mesmos (e geneticamente rotineiros) erros imundos? – eu já fiz minha lista.

“Mas que erros são esses mesmo?”.

Todavia. Eu sabia que MINHA real pergunta era do cu da cobra de tão vil e rasteira. Minha pergunta era “Quando”. Quando finalmente sairia daquela vida miserável que estava levando?, digo: a de estar entre divas e não poder tocá-las; a de estar na constelação e não poder brilhar; a de nunca ter um real no bolso furado. Quando finalmente ganharia meu primeiro milhão e viveria de excentricidades promíscuas, enquanto olhava o relógio em que o

tempo regride?! Criando filmes de arte psicótica...

“Talvez eu até desenvolvesse o hábito de pilotar helicópteros aos sábados e jogasse minigolfe em meu banheiro de dezoito hectares”.

Sim. Eu sabia que tudo aquilo eram perscrutações descaradamente individuais. Afinal. Meus problemas com o mundo deveriam serem resolvidos mano-a-mano. Na peixeira. À bala. À base de lança míssil.

Eu não podia (e nem queria) salvar ninguém. Em minha arca só havia uma champanhe quente e cama de casal com vista pro mar. – Concordei. Quando Tio Freud me explicou que, “Todo homem deve salvar-se por si só”, (ou algo assim... só que em suas palavras).

Eu digo: “Não seja uma ovelha”. Pois não vim até aqui com a intenção de pregar nada. Se me sujeitei a uma caneta Bic, um Tilibra de quatrocentas páginas e uma envergante transcrição na frente de uma tela Five Star, fora de linha, engordurada e cheia de poeira, não foi para salvar o mundo ou choramingar as mesmas magoazinhas existencialistas que os saudosos desde que – ganhamos a inteligência – comeram a maçã choravam...

Vim até aqui pra relatar (ou não) a ânsia/angústia/melancólica de uma geração de Big Macs comedores de Windows. Cus gordos. Precoces. Sem perspectivas. Sem rumo ou sonhos. Fumantes. Efeito estufados. Loucos perdidos como almas penadas na noite. Que não sabiam o que iriam ser quando crescessem. Que sofreram os males do “conflito de gerações”, entupiram-se de barbitúricos e rumaram (de madrugada) à uma vida nada fácil. Fãs de Bob Dylan. (Chico Science in memory e a) Nação Zumbi. Jack Daniels. Cypress Hill. Sucrilhos. The Simpsons. Dias frios. Dog Eat Dog. South Park. John Fante. Paranga servida. Msn. Caverna do dragão. Vídeos de skate. Hentai. Ratos de Porão. Praia. Bebedeira. Violão (sem Raul). Noite. “Prazer oral”. Tartarugas ninjas. Guitarras. Tattoos. Flertes fatais. Bolinações brutais. DVD. RL. LP. Filmes 80’s. Blues fodidamente solado por um alcoólatra suarento. (O que) Jack Bauer (faria?). Lowrider. NOFX. Fliperama. Pé na porta e soco na cara (quando cinematograficamente necessário). Pornô. David Holmes. James Brown. HQ. YouTube. (Assistir – e só assistir) Esportes que quebram os ossos. Bradley Nowell. Sandro Dias. Mário Bortolotto (grande dramaturgo, mafioso, bluesman e boa má influência [Don’t shoot him]). Delinquent Habits. Sonic Youth. Bandas da California. Sétima Arte. Rage Against the Machine. Poltronas de cinema. Coffin Joe. Toy Dolls. Internet. A carnavalidade – se é que você me entende – do carnaval. Dilated Peoples. Estádios. Tex Avary. Grafite. Cemitérios. Sete Galo. Futebol. Nelson Triunfo. Futurama. Cervejinha. Skate board. Long Beach Dub All Stars. Copos americanos. Buena Vista Social Club. Funk Doo Biest. Cavalos de pau. Pornochanchada. Bate cabeça. Os que tiveram um Atari. As minas que tocam guitarra só de sutiã e calcinha. Os que tem um PS2. Os que amam filmes B. Os que montaram uma banda. Street of Rage. Porno for Pyros. Cadilac Dinossauro. Kids Planet Hemp. Os que vomitaram no ônibus. Os que assistiram Coragem, o cão covarde. Cartoon network. Paixões passionais. Os que brigaram na escola. Os excluídos de festinhas, churrascos e eventos sociais em geral. Impulsivos. Os que tiveram um Pirocóptero. Os que foram ao teatro. Os que quebraram o braço. Os expulsos de casa. Os que transaram em banheiros. Os que perderam o celular. Os que odeiam. Que brigaram com os pais. Os que ligaram bêbados de madruga para a casa de alguém. As mulheres independentes. Os que foram ao Rio assistir os Rolling Stones. Os que nadaram pelados. Os que levaram uma surra e disseram: “Caí da escada”. Os que se deram bem. Os que sonharam em ser jogador de futebol, rockstar. Os que entraram tiveram coma-

alcoólico (no Show do Naught by Nature no Anhembi). Os que se foderam. Os que se deram péssimo. Os que choraram assistindo o clip de “Santeria” (no caso só eu devo ter feito isso em todo o maldito universo). Os que se beijaram num show fuleiro. Os que tomaram um soco. Os que se foram. Os que fingiram procurar emprego e ficaram na rua vadiando, bebendo, fumando e metendo. Os que nunca vadiaram na vida. Os que pegam metrô. Os que fumaram “unzinho que um brother da ‘Facul’ [Facul é foda] trouxe da Zona Sul”. Os que atravessaram madrugadas falando merda com os amigos. As gatas na webcam. Os que se perderam no vício. Os que já tem filhos. Os que nunca tiveram amigos. Gregory Corso. Os que não leram Céline. Os que indicaram Cioran. Cães de aluguel. Os solteiros sim, sozinhos nunca. A Jeniffer 8. Amantes de Tom & Jerry (antigo). Os que não pararam mentalmente na “história”. Os que pegaram o busão “701A Pq. Edu chaves/ V. Madalena” e passaram por baixo da catraca. O ócio de uma vida de (semi) inteligência (bastante) afrodisíaca. Burros. Sofistas. Cuzões. Sangues-bom. Fodas. Fodidos. Manos. Minas. Riot girls. Headbanguers. Rappers. Clubbers. Punkers. Beatnicks. Skatistas. Frescurentos, blá, blá, blá... E, óbvio: alguns dias de mais uma vida inútil. A minha. A merda da vida de Jack San Diego, o provocador de discussões.


“Obviamente não registrei fatos históricos aqui (nem fiz “citações pra erudito ver”), pois todos sabem que essa minha geração não tem memória na CPU, quer dizer, nem liga pra porra nenhuma (que não sejam eles mesmos)”.


Sim. A vida era um pentelho no gim. Pelo menos ainda é. E a redenção daquela minha busca não estava em medalhas made in Taiwan ou na seção de congelados. Talvez nem estivesse lá. Seja lá onde fosse. Se é que existisse um lá.

Mas como evitar que alguns desejos e conclusões precipitem-se no abismo de um triste fim nessa encruzilhada urbana: subornando-os com promessas de uma vida em abundância no país das bundavilhas? Sei lá. Talvez apenas um Opala com kit gás, uma louca que me diga “te amo” e um muquifo para chamar de lar comprariam minha alma.

Mas diga lá. Que homem desta geração não gostaria da ociosa vida em um iate com frigobar e scortgirls de biquíni? Ir pra Maresias rasgando a estrada de Kawasaki Ninja e uma assistente de palco do Pânico na TV na garupa?... Até eu que (não) sou (nada) trouxa. Eu. Querendo o mundo. Contentando-me com pouco. Vinho. Violão. E uma vaca que me despreza.

Eu. E meu próprio Mapograf do quinto dos infernos e camisinhas de posto de saúde no bolso.

Eu. Um plâncton. Surfando em uísque falsificado servido em taças de cristal. Sem a mínima decência. Híbrido. Fruto da tênue linha entre procurar cigarros no lixo do vizinho e corajosas em shoppings. Eu. Engendrando busquinhas idiotas e prosas pra boi dormir.

“Merda, eu não criei um estilo, eu nasci com ele!”.

Senhores. Eu não tenho tempo para perder com a eternidade. Por isso. Não serei demagogo, hipócrita ou filho da puta a ponto de dizer que odiava a vida que levava naquela época – longe disso – e nem dizer se ainda a vivo ou não. Porém não era bem aquilo que eu procurava na vida. Na verdade, senhores(as), eu queria mais do que o mundo, a vida, ou alguém poderia me oferecer. Aliás, ainda hoje, não sei o que estou buscando e nem estou indo atrás. Talvez seja algo que não encontrei em religiões. Sartre. Advinhas. Dick Vigarista. Chickenitos. Chaves em Acapulco. Pescarias. Tele-mensagens. Postos de conveniência. Pai Galo. No resultado da Mega Sena. Nas mensagens subliminares dos filmes da Disney. No requebrado da Shakira. Documentários da TV Cultura. Na musiquinha do caminhão de gás. Muito menos nas conversas sinceras – esse foi meu único tempo realmente perdido – que tive com pessoas que não deram atenção à voz do meu atribulado e inútil (pero multifacetado) ser.

Eu (dizia que) procurava respostas (ou uma bela desculpa) à qualquer custo. E era mais que evidente que não seria ali naquele mundo de rockstares falidos, bucetas interesseiras e atores suicidas que eu iria achá-las (talvez).

Mas foda-se. Ainda restam – agora enquanto escrevo – umas duas páginas de tinta (mais ou menos) na carga da caneta e muita idéia pra trocar comigo mesmo.

“Tecnologia autossustentável”.


4

balcão & calçada: pimenta a gosto


Não sou anjo da primeira hierarquia. Eu sou anjo caído. Não me digam para ser assim, assado à brasileira. Bebo, fumo, apanho e caio”.

Paulo de Tharso


Minha chave underground-peoplewatcher-outsider, como é de praxe, estava operando em modo On-line desde que vira Ângela – a executiva pra qualquer negócio – levar seu rabo embora. Após quase me afogar numa cachoeira de suco de abacaxi. Após quebrar meu coração – minha jarra na verdade – e me deixar molhadinho por ela.

Aquela velha angústia continuava me enforcando como se houvesse uma gravata de espinhos atada a meu pescoço e a ponta estivesse enroscada numa máquina-de-moer-carnes-assassina, enquanto Johnathan acendia seu último perfurador de caixa torácica de filtro vermelho, dentro do orelhão, que há na calçada do bar do Robbin Willians.

Johnathan como mal cidadão que é jogou o maço vazio e amassado no meio fio.

– Mas e aí, que horas vai ser isso?... – disse Johnathan ao sensível microfoninho do telefone – Lá pra uma?! Firmeza. Onde vai ser?... Na rave urbana?! Onde fica essa merda?... – Johnathan deu uma longa tragada e ficou ouvindo impaciente – Não. Não conheço, mas sei quem é... Sim. Se eu ver eu reconheço, mas... – tragou novamente, ouviu e continuou – Tá certo então. Às onze, né?! Fechou. Mas aí: quanto morre a consumação lá nessa tal de rave urbana?... Vinte por cabeça? Vish. Aí fodeu, mano, porque eu tenho duas – riu e continuou – Pô, cara. Trincou. Valeu mesmo. Faz uns dois meses que eu to atrás da Paloma. Queria ter levado ela numa viagem que fiz até Floripa. Foi da hora, ó. Só faltou a bendita da Paloma pra completar minha festa, véio. Ela ia fechar várias noites comigo, ó mano. (...) Pô, lógico, várias gatas... Só mina da hora. Comi uma loirinha lá, da hora. Depois te conto... Mas firmeza, então. Vou no corre aí, véio. Fica de boa por aí, véio. Falou – e enfim pôs o fone no gancho.


Até então meu dia não havia sido um dos mais comuns. Toda aquela história do embate histórico de dimensões titânicas entre Ângela, “atrás do celular” versus Patrícia, “a recôndita”, foi por demais traumatizante a um mero projeto de roteirista (?) que havia acordado literalmente como um bagaço humano. Nada poderia ser pior que alguns dos fatos daquela manhã.

Johnathan ainda não sabia, mas ele havia me ligado literalmente “um minuto” antes do encontro das tetas titãs. Aturdido atendi e do outro lado da linha surgiu àquela velha voz de tamanduá (dando) bandeira (de) drogado, dizendo: “Iaêê. Cola aqui no Babá Quase Perfeita que tem um role pra gente fazer” e desligou na minha cara...

Mas voltando ao orelhão:

– Consumação vinte?! Pelo jeito meu rolê acabou de acabar – eu disse, indignado e indiferente à Johnathan.

– Fica sossegado, San Diego. Eu vou bancar a sua.

– Bancar a minha? Você não tem dinheiro nem pra bater na sua mãe com um pedaço de alcatra e vai bancar a minha agora? Você anda fumando crack ou assaltou um banco?

– Ando fumando bancos e assaltando crack – rimos.

– Mas e aí que fita é essa de “rave urbana”? – Perguntei.

– Não. É o seguinte: primeiro a gente tem que trombar o Pablo, aquele Boliviano que mora na avenida, tá ligado?

– Sei quem é o locote.

– Então. Ele vai levar a gente no apartamento dum maluco aí. Ali perto daquele prédio onde fica a lojinha onde nós fomos comprar os enfeites de natal pra Érika, no ano passado...

– Érika?! A Érika ainda existe?

– Existe, mas tá casada.

– Ééééé... Vão-se as putas ficam-se as punhetas...

– Pode crê... Mas então. A gente tem que trombar a merda do boliviano às dez, mais ou menos, pra chegar no cara lá pelas onze... A fita é que o Bolívia vai levar a gente até a rave urbana pra gente catar a Paloma Negra. A gente sai daqui umas dez. Dá tempo de sobra... E fica sossegado, Jack, eu faço a sua e pago a gasolina.

– Tá benevolente a senhorita, eim? Tô até com medo.

– Tudo pela Paloma.


Cogitei alguns milhões de pensamentos que foram reduzidos à um sucinto:

– Hã... – nunca subestime meu Hã ou meu Só, pois eles têm mais conteúdo que muita enciclopédia por aí.

“Não entendi direito essa fita de trombar o Bolívia para depois ir ao Brás. Será que é lá essa tal de rave urbana?”.

– Ô, vamos passar ali no Babá pr’eu comprar cigarro – continuou Johnathan.

– Vamo aê. Vai pagar uma brêja?

– Até vou ó.

– Caraaamba. Fala a verdade Jôni, cê tá comendo uma velha rica decrépita, daquelas bem “uva passa asquerosa”, né?

– Pode crer. É sua vó.

– Minha vó não é rica.

– É que virei cafetão.

– Cafetão? Você?! Onde? No 69?!... – e assim prosseguimos nosso sapiente e instrutivo diálogo diário enquanto adentrávamos a bodega fétida de Robbin Willians, “o português”.

***


Havia uma rameira mal-acabada sentada diante o balcão, tomando algo que parecia cerveja. Johnathan pediu quatro “fura peitos vermelho” ao Barba (o sagaz assistente de Robbin Willians).

Eu inventei de gastar minha humilde moedinha de um real na máquina da Betty Boop. Era a primeira vez que jogava na vida.

A puta insinuou-se a Johnathan. Ele fez pose de galã bichado de novela mexicana, mas depois se esquivou no melhor estilo Arcelino “Popó” Freitas. Eu ganhei cinqüenta centavos em duas moedas de vinte e cinco.

– Há. Ganhei cinqüenta centavos – algo no som das moedas tilintando dava a impressão de victorium.


Johnathan e eu ficamos parados na porta do bar olhando o movimento da rua. Ele vertendo nicotina para os brônquios. Eu pensando em ir pra casa dormir mais um pouco. Tomar um banho de verdade. E cortar mais os pulsos.

Johnathan era um ser inanimado. Aos dezesseis anos sonhou em ser DJ – até trampou em uma loja de discos –, mas foi repelido da idéia por uma namorada ciumenta que o levou como um pônei, pintado de rosa, com xuquinhas verdes, em rédeas curtas. E depois o trocou por um cantorzinho sertanejo de merda (que não vingou) que apareceu uma vez no Raul Gil.

Aos dezessete quase foi preso tentando sair do supermercado sem pagar as oito ice que bebeu e um Ruffles que comeu no corredor... Se mijou todo na seção de U.D.. E sua mãe arcou com o prejuízo. Depois enveredou-se numa faculdade – acho que jornalismo – e fiquei sem vê-lo por um bom tempo.

Certa vez ele surtou. Evaporou do ecossistema. Desapareceu. Quase rolou umas caixinhas de leite com a cara dele estampada do lado e pá. Só foi encontrado quatro meses depois. Numa praça em Ourinhos. Completamente nu. Gritando para a luz de um poste: “Mãe, joga a chave, porra”.

Uma parte dos andarilhos de São Tomé das Letras disse que Jôni fora abduzido, mas na verdade – ele me disse a verdade – ele passou quatro dias bafando cola e tomando doce. E deu tilt na máquina. [Deu pau no bitelo, bélô].

Viciado em HQs, andou enfurnado em algumas revistas, trabalhando em cargos escusos. Já foi entregador de pizza. Espírita. Instalador de TV a cabo. Jogador de futebol de botão. Fã de Blur. Mendigo e quando o reencontrei, via Orkut, ele tinha certo prestígio com seu site de “artes”. Mas atualmente era só um quebrado como eu. Voltou às raízes podres. Mas comia várias minas por conseqüência de seu site de “artes” (e sua família socorria seus bolsos constantemente)... E eu, o amigo do “Dono do Ferro Velho” (como o chamavam, carinhosamente, no bairro), acabava comendo todas as “minazinhas cult” que ele já havia comido, pois, na real, as minas davam pra mim no interesse de se reaproximarem dele e darem para ele de novo. [Sei como funciona].

Mas até então vinha fácil. E eu colocava as beldades na mesa sem ao menos cogitar o famoso “pensar duas vezes”... – rebarbas de um fodismo forjado. Como efêmeras cerejas no meu triste sorvete.

– E aí, San Diego. Vai querer a brêja, mesmo?

– Ah, pega uma lata pra mim e vamos descendo aí.



Johnathan voltou com duas. Abrimos e fomos caminhando pela calle (siempre peligrosos), com nossas loiras geladas.

– Eu vou pra casa, mano – eu disse à Johnathan.

– Vai fazer o que lá?

– Nada. É que marquei uma ponta com uma bailarina russa e suas duas alunas suecas ninfomaníacas.

– Vai se foder, mano. Deixa de frescura e vamos fazer um H na rua.

– Que nada. Eu vou passar em casa cagar, bater uma, tomar outro banho e me preparar psicologicamente pra esse role inútil que você descolou.

– Firmeza. Então eu vou colar ali na Adriana, ver se ela me faz uma gulosa.

– Então: Au revoir muchacho.

– Falo aê – disse Johnathan.

– Boa sorte com a Adriana – respondi por cima dos ombros.

– E precisa de sorte com a Adriana? – treplicou ele.

– Filho da puta. – Rimos (ambos com a maléfica dignidade de quem reveza subidas ao céu alheio) e sumimos.


5

a diva sem reflexo no espelho morto


Milhões de quilômetros a um palmo de distância”

MaicknucleaR


A casa já não parecia mais a mesma. Era como um sonho de péssimo presságio. As portas continuavam atônitas. As plantas suplicavam por uma mísera gota d’água. O sol descia pela escada de emergência. As roupas continuavam na corda bamba. Os talheres não davam um pio e havia um vácuo latente no interior de casa.

Casa. Apenas uma amarga casa. Não um lar.

O espaço imóvel que havia sobrando na casa me dava certo frio na barriga. Certa sensação de medo. Certa saudade de alguém que nunca tive. De punhetas que não bati em tributo. E outros (milhares de) lugares comuns. [Pode crer, brother: tipo um pôr do sol].

Decidi não abrir as janelas. Muito menos acender as luzes. Não pela claridade, mas pelo lúgubre inconsciente.

Andei até o quarto. Peguei o edredom surrado e fui até a sala. Dominei o controle do som. Deitei no sofá. Liguei o som e... “Sofia”.

Olhos, cabelos, lábios...

...a flama que se instala no corpo como um magma sagrado dentro dos ossos. Um bisturi rasgando os olhos em sonhos demoníacos. Agulha quente atravessando a unha molhada com gasolina;

Um lirismo inútil e furado:

Sofia...

O sorriso em meus olhos de soslaio. Um pescoço convidativo. A fragrância de assassina. O aroma de Sofia.

Sofia era meu segredo enquanto a poeira caia como neve, desnudando-se, cintilante, sob um agonizante feixe de luz. Uma brincadeira boba e infantil. Um platonizar-se desgraçado. [Jesus...].

“I Heard it Through the Grapevine”, né, Sofia?!”...

A solidão do lar era a chave do cadeado da urna pirata onde se escondiam meus segredos mais tolos. E meus segredos eram obsessões fictícias. Quase esquizofrênicas. Pequenos filmes inconscientes onde Sofia era Bond Girl. E, lógico: Eu era James. [“Batido, não mexido”].

Sofia me fazia pensar em Johnny Cash e June Carter, cantando “’If I Were a Carpenter”. Quando na verdade...

Sofia não valia um doce.


6

morno


E cantávamos algo de cordel, talvez pelo fogo encantado que viveríamos quando seu corpo, na medida exata, encostasse ao meu”.

Beatriz Bajo


– Quer saber?: Cochilar o caralho... “E Sofia que se foda”.


O edredom ficou incômodo. A música causou engulho. E o fantasma de Sofia rondava meus pensamentos. [Com certeza alguém já escreveu isso: “o fantasma de X Pessoa rondava meus pensamentos”, né seu Jack].

Eu deveria odiar aquela lembrança (sonho, fantasma, holograma pornográfico desenvolvido pela Microsoft, ou a merda que fosse) e não desejá-la como se fosse uma menininha que espera por um príncipe afeminado montado bichescamente em seu arrombado cavalo cagão.

Eu deveria fazer uma bela duma incisão na região dos neurônios responsável pelas “platonizações ridículas”. E sumir de uma vez por todas com o espectro ectoplasmático daquela puta que costumava aparecer no azulejo da cozinha. Na estação São Bento do metrô. No reflexo de um vidro de um ônibus e em fundos de potes de sorvete derretido.

Sim, meus caros: Foi terminantemente proibido de se falar aqui naquele nome com S. Pois, porra: esse livro não se trata de mais uma Dalila da alta classe média paulistana, que entrou na vida de um projeto de roteirista (?) maluco, da chorumizada periferia do outro lado do esgotão que corta a cidade, apenas para trazer cestas de quimera no fim do ano. E utopia em (raras e alcoolizadas) ligações de madrugada. Mas, sim, usar a merda de um trecho da minha vida de merda para transmitir um certo adubo, tá ligado?!... Simplificando: a intenção destes relatos é usar uma história tosca, quase sem pé ou cabeça, para sublimar algo tão magnificamente foda, tão gigantescamente pequeníssimo, que, muito provavelmente – noventa e nove contra um –, vai passar batido por muita gente (que não tem porra nenhuma a oferecer) de nossa época (ou seja: 99,790%), pelo simples fato de não estarem preparados (para nadica de nada). Pelo simples fato da nata da cultura (a)brasileira(da) ser a remela de ouro dos olhos da elite. Olhos esses que não são capazes de enxergar um Boeing 747 com talento, nem mesmo se ele tivesse caído de bico dentro de seu ofurô.

Raros são os que sacam o que Jesus quis dizer com “Perdoe-os, pai, pois eles não sabem o que fazem”. E por culpa de algum império que derrubei em alguma vida passada, sou um dos poucos filhos da mãe que sacam. Pero, “Fuck the Bullshit”, como diria aquele som do 311. Chega de blá, blá, blá...


***


“É meu caro leitor. Não se engane com este começo maçante. Este é o purgatório. Depois vem o inferno. E enfim a redenção. Segura a onda aí. – o céu?”.


***


Numa bica a lá Jackie Chan mandei o edredom pra longe e pulei daquele sofá movediço para a nem tão maravilhosa vida.

Decidi abrir todas janelas e portas da casa. Deixar tocando o Cd “Stand by your van” do Sublime, no 30 do volume, como um preâmbulo noturno, pois talvez naquele esgoto a céu aberto houvesse um pingo de água potável. Talvez. Naquela atmosfera de monóxido de carbono houvesse um pingo de oxigênio. Ou um cubo de gelo para por na cabeça quente. E flores escondidas sob o carpete. [Talvez, minhas cuecas, no varal, já estejam sequinhas, quem sabe?...]

Um belo banho ouvindo “Don’t Push - Live” que mandou o sangue das lembranças ir quase literalmente pelo ralo (que entupiu). E aquecer as turbinas para o rolê fuleiro que Johnathan havia descolado. Só não serviu para curar o resto de leseira que insistia em latejar no âmago do lóbulo frontal.


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